sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Medo de Mulher
Tom Zé falando o que não se costuma ter coragem de dizer.
Iê le le lê
Iê le le lê
A Dora me botou fora
A Biu me despediu
A Marta nem uma carta
Dorete nem um bilhete
Dudinha nem uma linha
Zenai nem gudi bai
Susana fui rolimã
Pra Lana fui tobogã
Pra Beta fui bicicleta
Teresa bateu de "t"
Zenai bateu de ai
Patrícia bateu de pá
A Benta me acorrenta
Teresa no pé da mesa
Joana no pé da cama
Anália com a navalha
Adele me corta a pele
A Gal é que bota sal
Celeste botou-me peste
Edite botou-me gripe
Soraia me botou saia
A Malva me depilava
A Cáti de alicate
Odete de canivete
Luzia, cada fatia
Que a Bia me dividia
Maria distribuía
Socorro como um cachorro
A Tânia como uma aranha
A Dora com a espora
A sombra se aproxima
Enorme sobre o meu berço
Levanta-me pelo ar
Mamãe, me bota no colo
Me dá de mamar no peito
Balança pra eu arrotar
Balança pra eu arrotar
Boi, boi, boi da cara preta
Pega o Toim Zé que ele tem medo de careta
Boi, boi, boi cara de louça
Pega o Toim Zé que ele tem medo de moça
Boi, boi, boi cara de lua
Toim Zé ainda chora
Quando vê moça nua.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
De novo, o ponto cego
Não se pode ver que não se pode ver o que não se pode ver. Na tragédia, essa máxima de que não se escapa vem com um toque de ironia: o herói trágico, à despeito de sua cegueira quanto ao destino, convive com um tipo de inversão de causas e efeitos que coloca a inteireza de seu infortúnio bem debaixo do seu nariz, sempre. Ele não pode ver não porque não queira ou não se esforce para tanto, mas porque aquilo simplesmente lhe escapa, porque é o domínio escuro das Moiras, do insondável, do inevitável. Somente o espectador, aquele que de fora frui o gozo lúgubre da tragédia, pode enxergar e compreender a extensão da catástrofe que se avoluma sobre a cabeça do infeliz desafortunado. O espectador, contudo, nada pode fazer, pois a sua própria condição pressupõe não lhe ser dado interferir na trama - do contrário ele faria parte desta, e seria igualmente cego. Não há esperança possível para o herói trágico: resta-lhe apenas evadir-se, sabendo-se esvaziado de si mesmo nas mãos dos deuses que governam o seu destino.
Essa mesma lógica se aplica, ao menos em parte, à catástrofe amorosa. Não me refiro, é claro, ao "desespero lento", à "resignação ativa" de quem diz "amo-te como é preciso amar, em desespero", mas ao desespero violento e intratável de quem se descobre - mais que preterido - rechaçado (sexualmente: "o infantil - ver-se abandonado pela Mãe - passa brutalmente ao genital", como diz Barthes). Tudo estava ali, à vista, mas fora dela: e o desejo confessado de uma selvageria livre e dona de si se torna, à socapa, o jugo de uma dominação execrável - e como é de toda verdadeira tragédia, causas e efeitos se confundem.
Mas para o amante desgraçado, à diferença do herói trágico, a cegueira, vindo a trambolhões, desmorona silenciosamente em um incontrolável e soluçante "por quê?". O amante não se rende ao destino, não se entrega aos deuses, ou pelo menos não de imediato, quando lhe é desferido o golpe da consciência de sua situação - ele não pede, como Édipo, o exílio. Ao contrário, ele repete obsessivamente um "por quê?" que se volta sobre si mesmo, como um cão que corre a esmo atrás do próprio rabo. Isso não faz com que sua tragédia seja maior, ou mais doída, senão revela o seu caráter psicótico. E aqui deixo de falar eu mesmo (que sintomático!), para deixar falar de novo Barthes, de quem traduzo, mal e mal, um trecho de seus "Fragmentos":
"A verdade é que - paradoxo exorbitante - não paro de crer que sou amado. Alucino o que desejo. Cada ferida vem menos de uma dúvida que de uma traição: porque não pode trair senão quem ama, não pode ter ciúmes senão quem crê ser amado: o outro, episodicamente, falta a seu ser, que é o de amar-me - eis aqui a origem de minhas desgraças. Um delírio, no entanto, só existe se despertamos dele (só existem delírios retrospectivos): um dia compreendo o que me ocorreu: cría sofrer por não ser amado, e, no entanto, sofria porque cría sê-lo; vivia na complicação de me crer, a um tempo, amado e abandonado. Alguém que tivesse entendido minha linguagem íntima só poderia exclamar, como se faz com uma criança birrenta: mas, enfim, o que queres?"
Por enquanto, contudo, apenas tento manter afastados os móveis e cravar os dentes numa toalha qualquer, para não decepar a língua. E aguardo.
domingo, 26 de julho de 2009
Spleen (ou poesia ridícula para aliviar os cotovelos, mascarar a burrice e organizar o descontrole)
Não sei, por exemplo, se o solstício é de verão ou inverno.
Conheço apenas do betume noturno a fundura espessa,
O rastro molusco dos astros e a saudade dos amantes.
Já não sei, dentre tantas vidas, qual a que me toca,
Ou se toca, ou se esta boca plena de um grito surdo
E estes olhos desmedidos são de pavor ou gozo,
Ou de um pavoroso gozo, semelhante ao partir.
Nenhuma outra noite arrastará mais longo vestido de pêsames.
Que digo! – mais longa ainda é a ambição dos alfaiates;
Dura nas pestanas o gosto tíbio dum sono sem sonhos,
Como na mão da feiticeira a túmida rosa colhida.
Estou perdido entre os estilhaços alfanuméricos do calendário,
Preso nalguma data infinitesimal, nem ainda, nem já.
Aqui não fazemos aniversário, ou descobrimos novas carícias.
Somente tua saliva ou teu suor fermenta entre meus dentes.
Estás ausente. Estou ausente. Talvez por isso mesmo
Estes espectros recalcitrantes esganam a clepsidra,
Empenhados em massacrar nossas parcas felicidades canoras,
Em fustigar-nos com o tédio, a chuva e o silêncio.
Longe erram minhas certezas; abandonaram-me,
Tão sorrateiras e sem susto como o passeio dos gatos,
Tão mudas, tão dormentes como rios subterrâneos
Que secassem. Assim capitulou minha língua e emagreceram os nomes.
Tanto melhor: sou agora aquele em que todas as coisas não estão,
Em que as horas entristecidas coagularam, e estancaram as nuvens.
Sou igual a esta noite de solstício (não sei se de verão ou inverno),
Noite desde dentro, noite-resto, donde fugiram todas as cores.
Igual à noite primitiva das vidas que não surgiram.
Que sentido há em dizer “isto é por certo”, ou “é verdade”,
Justo eu, que não és? Melhor tudo em mim ter sido abandono,
Espera e tentativa. Se nada aguardo, ninguém poderá tomar-me de assalto.
sábado, 14 de junho de 2008
Igual e Diferente
Chegando aqui, logo me dei conta de que a afirmação do meu amigo tinha autoridade: sendo ele um cara perceptivo, e tendo vivido apenas em São Luís desde sempre, é óbvio que é larga e reiterada sua experiência com essa noção de “igual e diferente” (embora possa ser que, por isso mesmo, ele, e as tantas outras figuras perceptivas que vivem aqui, já não tenham como reconhecer a diferença na igualdade ou vice-versa – afinal, a gente sabe como o nariz se acostuma a odores e deixa de percebê-los).
São Luís é uma ilha-naufrágio, um barco ébrio encalhado junto à costa, cuja equipagem, enlouquecida e assolada por muitos cruzamentos estropiados, mal desconfia da própria insânia. Aqui, a ruína está em nossos calcanhares por toda parte, e o ar marinho rói sem piedade as ferragens das portas, as pinturas das paredes, e o aramado das almas. Tudo é embalado pelo ir e vir hipnótico das marés e sua brutal amplitude, e por isso todo mundo aqui, penso eu, segue a vida assim meio como sonâmbulo.
E falo sério. É espantoso como o maranhense é indolente, como parece que não está nem um pouco se lixando para a desgraça que se avoluma sob suas ventas (parêntesis para um mea culpa: não renego essa minha maranhensidão, não, pelo contrário: estou certo de que foi essa mesma palermice endógena que me impediu de colocar a conta de luz no débito automático, obrigando meu amor* - a quem eu pedi que molhasse minhas plantas na minha ausência – a ter que se desgastar em telefonemas para a Cemig, depois de constatar que minha energia estava cortada). Justificado pela minha condição, posso falar sem piedade.
Por exemplo: anteontem saí andando para a praia, por dentro dos bairros. É uma caminhada de uns vinte minutos, que vai dar direto na descida para a praia do Caolho, logo em frente a um condomínio residencial bastante conhecido aqui. As casas são todas imensas e aparentemente bem cuidadas, típicas das famílias de classe média-alta local – confirma-o a quantidade de pickups Toyota e Nissan que eu vi entrando e saindo das garagens. Mas, por incrível que possa parecer, as ruas de piçarra do bairro são um odioso esgoto a céu aberto, com mato alto cobrindo as calçadas. E isso a menos de 50 metros de uma das mais importantes avenidas da cidade!
Poderia dar muitos outros exemplos do gênero, todos evidência de uma péssima administração municipal, absolutamente incapaz de fazer cumprir os regulamentos urbanos. Mas como todos esses problemas apenas me parecem mais graves hoje, e não de todo novos, fico muito tentado a concluir que isso diz muito mais do maranhense em si – e do ludovicense em particular – do que de uma escolha política malfadada.
Não vou deixar essa visão unilateral das coisas gerar no meu leitor uma idéia errônea sobre minha cidade, mas por enquanto é isso que tenho a dizer. Obviamente vou ainda escrever bastante sobre minha viagem** (viagens são ótimas para estimular observações, porque, de repente, aquilo que não víamos que não víamos aparece), e aí o quadro ficará mais completo.
Tudo isso só para dizer que observar minha cidade com olhos de estrangeiro tem sido excelente para que eu entenda o que é ser “igual e diferente”. Já dizia meu pai: “Quem sai aos seus, não degenera” - e isso vale mesmo para toda uma linhagem de degenerados.
De um lado e de outro, casas grandes de famílias de classe média-alta. Lá na frente, a Av. dos Holandeses e, mais adiante, a praia do Calhau.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Sobre durar e ser efêmero

"Segundo uma pesquisa sobre a natureza do amor e da paixão, feita recentemente nos Estados Unidos, em que foram entrevistadas 5 mil pessoas em 37 culturas, há uma série de evidências de que essa exaltação [da paixão] seja criada por um coquetel de substâncias químicas cerebrais e deflagrada pelo condicionamento cultural. Os pesquisadores observaram que esse tipo de emoção não dura mais que dois anos e meio, quando a pessoa começa a voltar a um estado mental relaxado. Em meados da década de 60 a psicóloga americana Doroty Tennov já havia chegado à conclusão de que a duração média de uma paixão é de 18 meses a três anos. Suspeita-se que seu término também se deva à fisiologia cerebral; o cérebro não suportaria manter eternamente essa excitação."*
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Leveza
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Apelo aos Revolucionários
Eu digo que sou conservador e sou conservador mesmo, mas não posso sair dizendo isso por aí sem me justificar, porque qualquer um que me conheça mais de perto certamente vai torcer a cara e dizer, em tom desconfiado ou de galhofa: "Tu, conservador? Conta outra, maluco!" Conto não, é isso aí, sou conservador sim!
Para todos os efeitos de direito, eu sou uma alma perdida, um doidão inveterado que se deixou corromper pelo discurso da lei - no caso, meu verdadeiro descaminho. Na minha ficha criminal constam: iniciação ao canabinismo aos 13 anos; infecção pelo vírus do hard rock aos 14, com dois anos de estágio em punk e pós-punk avançados; boêmia crônica a partir dos 16 - fato agravado pela minha atuação paralela como músico e minha posterior descoberta de Rimbaud e
de todos os malditos clássicos da poesia, aos 17; aos 18, entrando na universidade, iniciam-se minhas atividades de quadrilheiro, na época já interdisciplinar (o curso de direito funcionava no campus, no mesmo prédio em que comunicação e economia, logo diante do prédio das humanas): movimento estudantil e movimentação cultural alternativa; aos 20, depois de uma temporada de epifanias espirituais no coração místico do Plananto Central, incorro em ovo-lacto vegetarianismo cominado com magismo, demonologia, parapsicologia, ufologia, cabala, candomblé e afins; isso afora um bocado de outros pecadilhos, de que terei a delicadeza de poupar o leitor sensível ou impressionável.Mas isso tudo, gentes, é só a "história externa"; é só epifenômeno. O que permaneceu escrupulosamente intocado ao longo de todos esses anos e de todos esses capítulos da minha novela rocambolesca, foi o meu espírito conservador, meu senso de preservação. Afinal, ser conservador nada mais é do que isso: ter um sentido de preservação apurado e ativo. Um sentido de preservação, diga-se, que ultrapasse a mera continuidade da existência física. O conservador é alguem que considera as coisas permanentes mais satisfatórias, e ainda assim sabe que "a mudança é o meio de nossa preservação" (Burke).

Deixem-me exemplificar. Barthes faz a pergunta: "Por que durar é melhor que inflamar?" Eu respondo, conservadoramente: porque se inflama e não dura é porque não tinha muito o que queimar, ou então porque o queimador está desregulado, e faz-se como quem come todas as refeições do dia em uma só, para não ter que se preocupar com isso mais tarde. E quem diz que nessa vida é preciso "beber de todas as águas", nunca teve uma desinteria daquelas, ou
quer se vingar da própria burrice no fiofó alheio - afinal de contas, há sempre algo de didático na sina dos bois de piranha. Liberdade sexual feminina? Simetria inata entre os sexos? Bem, há estudos que demonstram que, em condições de relativo equilíbrio entre os gêneros, adolescentes atraentes que se mantém reservadas sexualmente possuem alto "valor de mercado" e geralmente atraem as melhores perspectivas de investimento parental masculino de longo prazo, ao passo que as "assanhadas" precisam adaptar suas estratégias para extrair pequenas parcelas de recursos (não estou falando de dinheiro ou bens materiais apenas) de uma série de homens. Não se pode negar que há quem se divirta assim, e ter um homem fixo à tiracolo não é necessariamente algo que uma mulher precise. Mas as implicações do corrente estado de frouxeza da moral sexual sobre a tessitura da sociedade são amplas demais para serem simplesmente desprezadas. A pusilanimidade masculina generalizada só confirma isso.
