quinta-feira, 15 de abril de 2010

Quod superius, quod inferius



Quem me conhece minimamente sabe do meu interesse por assuntos ligados à chamada “filosofia natural”, não propriamente o antigo ramo filosófico de investigação dos fenômenos da natureza que degenerou na ciência moderna, senão o seu sentido medieval e renascentista, derivativo, metonímico: filosofia natural, denominação que se costumava dar ao conhecimento cerimonial dos antigos, à ciência régia, a arte sacerdotal oculta de domínio do grande Arcano – expressão com a qual se podia convenientemente descrever um circunlóquio sobre a idéia profana de magismo. Cornelius Agrippa, Paracelso, Ramon Lull, Francis Barret, Tritemo, Guillaume Postel, Swedenborg, e, sobretudo, o abade Alphonse Louis Constant, ou Eliphas Levi Zahed em sua cognominação cabalística, foram, entre outros, meus instrutores de filosofia natural, de quem adquiri um conhecimento que continua sendo muito importante em minha vida.

Mas antes que algum engraçadinho se meta a querer me espinafrar, já adianto que nada mais longe de mim que pretender pagar uma de Paulo Coelho: chuva eu nunca produzi nenhuma, nem a dourada, e ventania mesmo só uma bufa ocasional. E muito embora se afirme que por meio desta ciência o adepto consiga se investir de um tipo de onipotência relativa, tornando-se capaz de agir num nível além da medida comum dos humanos, coisa de que eu não me encontro em posição de duvidar, meu interesse, pelo menos aqui, é outro, mais específico, mas não menos assombroso, a saber, a criação do homem por si mesmo e a plasticidade do real. Percebam que nada há de sobrenatural nisso, até porque o magismo jamais poderia admitir a idéia absurda e supersticiosa de um poder contrário às leis universais: “A magia é a ciência tradicional dos segredos da natureza, que chega a nós pelos magos,” sintetiza Levi em seu Dogma. Aliás, a investigação histórica mostra que na raiz da física e da química de hoje está a velha alquimia e sua metafísica.

Em outras palavras, o conhecimento mágico se propõe não a suspender ou abrir parêntesis nas leis naturais, a operar “milagres”, mas a dotar o homem de meios de se transformar naquilo que os cabalistas chamam microprosopo, ou seja, o criador do pequeno mundo - criador de si mesmo e de uma vida interior imortal, e assim de tudo que o circunda. Diz-nos Levi:


Le mage est véritablement ce que les cabalistes hébreux appellent le microprosope, c’est-a-dire le créateur du petit monde. La première science magique étant la connaissance de soi-même, la première aussi de toutes les œuvres de la science, celle qui renferme toutes les autres et qui est le principe du grand œuvre, c’est la création de soi-même.



Ora, logo na primeira das iniciações do Dogma, Levi nos declara que o instrumento de realização da grande obra é a palavra, o verbo. Invertendo o cogito cartesiano, ele expõe a base primitiva de sua filosofia experimental: "Eu sou, logo o ser existe". Assim, ao afirmar ego sum qui sum, Deus se revela no homem, e o homem se revela no mundo. O verbo, a palavra verdadeira, para o homem, é a manifestação uníssona de seu ser, de sua inteligência e de sua vontade. E a inteligência e a vontade, por sua vez, têm como ferramenta auxiliar a imaginação, o olho da alma, meio onde se desenham e conservam as formas. A palavra, apoiada na imaginação, é o que transforma o mundo.

Muito bem.

Esse curso de idéias, por enviesado modo que seja, me leva a outro mago mestre meu, verbo poderosíssimo, inventor e reinventor de mundos, que foi quem primeiro me deu o mote dessa postagem, com a releitura que fiz outro dia desses da minifábula “Desenredo”, em Tutaméia. Rosa, não sei se sabem, mas são palavras dele, era um místico: “Sou místico, pelo menos acho que sou”, disse certa vez, acrescentando:


Eu não sei o que sou. Posso bem ser cristão de confissão sertanista, mas também pode ser que eu seja taoísta à maneira de Cordisburgo, ou um pagão crente à la Tolstói. No fundo, tudo isto não é importante. Como homem inteligente, às vezes pode-se sentir necessidade de se tornar um beato ou um fundador de religiões. A religião é um assunto poético e a poesia se origina da modificação de realidades lingüísticas.

Sim, poiesis, o ato de criar – para Deus e para o homem, pela palavra. E não a palavra grega do logos, cálculo, pensamento, mas o davar hebraico, palavra-coisa, palavra-ato, falar-fazer. Por ela o homem é muito mais que mero súdito de Deus, fazendo-se demiurgo junto Dele e compartilhando da responsabilidade por aperfeiçoar Sua obra, num vir-a-ser que só é possível porque a contrapartida da vontade divina é o livre-arbítrio humano. Este falar-fazer é a aliança de parceria entre Deus e os homens, que começa com Adão, a quem foi reconhecido o direito de nomear o mundo, e se consolida com Noé, que salva para Deus a criação e com isso legitima sua participação na empreitada. O homem é chamado a agir diante da incompletude e da falibilidade, e Rosa também sabia disso:

Nós, o cientista e eu, devemos encarar a Deus e o infinito, pedir-lhes contas, e, quando necessário, corrigi-los também, se quisermos ajudar o homem. O bem-estar do homem depende do descobrimento do soro contra a varíola e as picadas de cobras, mas também depende de que ele devolva à palavra seu sentido original....


Mas, e se o passado estiver errado?


Mude-se o passado, pois! Quanta incredulidade...


Jó Joaquim não teve dúvidas. Importava-lhe, mais que tudo, "por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos", operar o passado, "plástico e contraditório rascunho", para criar "nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?" Não quis saber - fez, só. De convencimento em riste e livre de acabrunhos, declarou que "todo abismo é navegável a barquinhos de papel", em perfeita inteligência sentida de que "o trágico não vem a conta gotas", mas também de que "haja o absoluto amar - e qualquer causa se irrefuta." Jó Joaquim imaginou, e falou - e fez-se.

Bem, não vou lhes frustrar a leitura do conto - se não para entender melhor o que eu quis dizer, ao menos pela curiosidade e o prazer de ler uma obra primorosa.

Eu acredito no poder das palavras - não como um dia jactou-se Poe, in the mad pride of intellectuality, apenas para cair nas mãos do indizível, mas como a própria linguagem do indizível, como poesia (Goethe: "Poesie ist die Sprache des Unaussprechlichen"). Dela retiro a matéria do meu eu secreto e dela me cubro perante o mundo. E sigo sendo.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Preto no branco

Você não me vê mesmo ou está só fingindo?



Há algum tempo comprei um livro muito instigante do sociólogo e cientista político Alberto Carlos Almeida, de título "A Cabeça do Brasileiro". Trata-se, em resumo, de uma adaptação e aplicação da metodologia estatística das famosas "surveys" norte-americanas à realidade brasileira. Bem, se o leitor não sabia, fica aqui informado de que os americanos são os campeões das pesquisas de opinião e têm dados estatísticos sobre praticamente qualquer coisa que possa ter relevância para a composição da opinião pública, incluindo muitas coisas que a princípio podem passar por inutilidades. Almeida leva o mérito de ter ajustado ao nosso particular contexto social os parâmetros empregados pela General Social Survey, a maior pesquisa social dos Estados Unidos, realizada a cada dois anos, desde 1972, pela Universidade de Chicago. A PESB – Pesquisa Social Brasileira – foi levada a cabo pelo instituto DataUff, da Universidade Federal Fluminense e financiada pela Fundação Ford (e não, não creio que este fato tenha se refletido como enviesamento político do trabalho), tendo sido ouvidas 2.363 pessoas, em 102 municípios.

Afora a intenção de Almeida (a meu ver, bem sucedida) de confirmar empiricamente a tese de Roberto DaMatta – a problemática distinção entre indivíduo e pessoa, sintetizada no nosso conhecido "você sabe com quem está falando?", em tudo oposto ao "who do you think you are?" do mundo anglofônico –, o livro coloca sobre a mesa um punhado de verdades incômodas que a maioria de nós prefere disfarçar com mitomania, má consciência ou alienação. Mas meu propósito aqui não é dissecar o livro e explorar as contradições e a hipocrisia do brasileiro médio, nem sequer fazer uma resenha, que se podem encontrar várias muito boas por aí; quero apenas deixar registradas algumas de minhas impressões sobre o preconceito dirigido contra pardos e nordestinos, objeto dos capítulos 9 e 10 do livro, e algo que me diz respeito pessoalmente.

Um incômodo que sempre me acompanhou pelo fato de não ser nem branco nem negro é um tipo de sensação de "falta de lugar". Eu estudei a vida inteira numa excelente escola, que naquele tempo dividia com uma única outra a educação da elite local. Bem, quando se diz "elite", implícita vai a idéia de uma maioria branca, ou que como tal se identifica. A princípio - refiro-me aos onze primeiros anos da minha vida e cinco de escola -, o problema de precisar me identificar como branco ou como negro era problema nenhum, porque eu simplesmente não o via: impediam-me a linguagem familiar, a diversificada paleta de cores da parentalha, do branco azedo ao tição lustroso, além da minha habitual falta de desconfiança. Mas aí o chegou o momento em que o cabelo começou a demonstrar de forma inegável a potência de seu geotropismo negativo. (Para os que perderam essa aula de biologia: começou a crescer para cima e virar uma moita, ou como queria um filho da puta maldoso, amigo meu, "um cupinzeiro".)

E coisas estranhas se seguiram: minha mãe passou a sugerir que eu fizesse um "relaxamento" para "soltar os cachos", e se prontificava a fazê-lo ela mesma; os colegas agora me chamavam de "negão" de modo mais específico, quer dizer, com um tom algo diferente do tratamento genérico a que o termo servia; e eu mesmo passei a me dar conta de que minha cabeleira não flamulava ao vento como a dos outros rapazes, que minha pele reagia mais "intensamente" a um dia de praia, e que as garotas iam ficando reticentes comigo, quase refratárias, ao mesmo tempo em que deixavam evoluir o contato com outros rapazes, os claros e de cabelos lisos. A essa desgraça somava-se o fato de que eu estava sempre entre os melhores da turma e era queridinho dos professores, usava óculos, adorava ler e não era de esportes - em suma, era CDF.

Lembro-me da ocasião em que a ficha caiu. Estávamos alguns rapazes da escola conversando com outros amigos que não estudavam lá quando o assunto recaiu sobre certa moça, que fazia sucesso com a galera. Alguém estava descrevendo a dita moça quando eu atalhei e disse, antes de chegar ao atributo que mais interessava: "... ela é mais ou menos da minha cor e...", mas não consegui terminar a frase: "que da tua cor o quê, rapaz, tu é preto, sai prá lá..." E fiquei sendo, instalado estreito na minha falta de lugar: mas nem tão preto a ponto de ser empurrado para o gueto da minoria negra que as bolsas de estudo permitiam "conviver" com a elite, nem tão branco que pudesse participar irrestritamente dos prazeres de uma aceitação a priori. Isso é coisa que não se enuncia, que não se diz com todos os fonemas, mas que sai nas legendas, em letras miúdas, bem vermelhas ou roxas.

Depois que me mudei definitivamente para o Sudeste, há uns 9 anos, passei também a sentir a desconfiança alheia pelo fato de eu ser nordestino. Bem, é certo que hoje isso não faz muita diferença, virou apenas um dado pitoresco a meu respeito, sobretudo porque a inteligência aguda e a força física impõem respeito. Mas logo que cheguei aqui, percebi que as pessoas se mostravam interessadas e perguntavam curiosamente sobre o lugar de onde venho, só para depois reforçar minha condição de forasteiro dizendo para algum eventual terceiro "ah, Fulano, ele é da terra do Sarney" - no que se emendavam várias outras detestáveis perguntas e afirmações estereotipadas. Bem, caro/a amigo/a, acredite: isso não é a mesma coisa que dizer que o sujeito é paulista, carioca ou gaúcho. Cagada no trânsito ou serviço mal feito é "baianada", termo genérico para nordestino, e isso é sintomático, tanto quanto dizer que o sujeito tem um "pé na cozinha". Pelo menos duas oportunidades de emprego foram inexplicavelmente perdidas depois que, em entrevistas ou treinamentos, eu falava com entusiasmo de minha origem.

Bem, chega, porque a última coisa que quero é que meu texto pareça a lenga-lenga plangente de alguém que se acha vitimado. Minha experiência direta com o preconceito sempre foi bastante diluída, tanto que eu nunca sequer cogitei me tornar um ativista - o que não torna a discriminação vivida menos real e sofrida. Olhando retrospectivamente (tenho usado tanto essa expressão...), percebo que, juntando os aqui e acolás, foram muitos os eventos desse tipo que me ocorreram, embora quase sempre sem maiores repercussões. Não se trata de algo que paralisa ou desviruta a minha vida, mas não deixa de ser um transtorno que de vez em quando incomoda, precisamente por ser um preconceito ambíguo como a situação dos pardos, e por isso mais dissimulado e insidioso.


Arremato com uns trechos do Alberto Carlos Almeida e uma poesia de Langston Hughes:




"[A] avaliação que o brasileiro faz dos pardos pode ser reforçada se forem observados os percentuais para alguns atributos positivos e negativos. São eles os menos honestos, os que mais parecem com um criminoso, os mais malandros (empatados com os pretos) e os segundos mais preguiçosos. Em resumo, sua imagem está associada à desonestidade e ao crime. O pardo personifica o malandro. O historiador Carl Degler diria que essa hostilidade decorre de sua imagem como aquele que gosta de se intrometer onde não é chamado, disputando posições com os brancos, principalmente no mercado de trabalho. Ou seja, "o negro conhece o seu lugar e o mulato (pardo) não... o mulato é que é móvel socialmente, não o negro".
"Os dados revelarão que, apesar de branco, [o indivíduo] não merecerá a mesma avaliação que os outros dois da mesma cor [e que não foram dados como nordestinos]. O que mostra o preconceito contra os nordestinos, mesmo que ele seja branco."


Cross

Langston Hughes, 1926

My old man's a white old man
And my old mother's black.
If ever I cursed my white old man
I take my curses back.

If ever I cursed my black old mother
And wished she were in hell,
I'm sorry for that evil wish
And now I wish her well.

My old man died in a fine big house.
My ma died in a shack.
I wonder where I'm gonna die,
Being neither white nor black?


What you see is not what you get!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Futilidades

Aqui estou eu, no mesmo café de sempre, tomando meu expresso e fumando meu episódico cigarrinho, depois de comer um sanduíche de frango desfiado em pão sírio e beber um grande copo de suco de laranja. Estou de férias e tenho vivido de forma indolente, preguiçosa mesmo, cuidando do corpo e repassando meu scrapbook de vivências, mas sem nenhum grande esforço para sistematizar nada, apenas deixando as coisas andarem no ritmo que dita a vida. É claro que essa situação não vai durar muito tempo, pois os compromissos logo logo vão começar a bater na minha porta, e as decisões, as tomadas e as esboçadas, vão reclamar que eu ponha as mãos na massa e o pé na estrada. Mas, por enquanto, vou aproveitando.


E por causa dessa indolência mesma, dessa relutância em fazer qualquer movimento concentrado, vou escrevendo sem saber bem sobre o quê, querendo apenas dissipar minha energia e meu tempo, como se eu fosse pródigo e tivesse a eternidade à minha disposição. Paro, faço uma fumacinha, observo o movimento ao meu redor, ajeito a boina, estalo o pescoço e penso como o grosso das nossas experiências são banalidades, coisas triviais. E não, Mulher Fálica, eu não estou filosofando - essa é apenas uma observação absolutamente ordinária, apenas uma desculpa para continuar escrevendo, que você já sabe que eu gosto de fazê-lo.


Ouço Dorival Caymmi cantando "É Doce Morrer no Mar" aqui na minha orelha. Meu pai morreu no mar (bem, na verdade ele morreu num hospital, mas o acidente que o matou foi no mar). Nessa minha última viagem para o Maranhão visitei a cidade balneário onde ele era médico e fui ao Centro Municipal de Saúde que hoje leva o nome dele. O lugar onde ele morava, um casarão dos anos 30, está em ruínas. No cemitério onde ele e meus avós estão enterrados, muito mato e um gradil velho e enferrujado, com uma placa quase ilegível. Conversei com uma vendedora de cocos que lembrava dele: "Ah, claro, um excelente médico, conversava com a gente, não era como esses de hoje que mal olham na cara do paciente..." Pois é - era, morreu, não tem mais. E aqueles indícios todos, aquilo que saltava aos meus olhos como evidência e lembrança do homem que me ensinou a andar de bicicleta e amar os livros, agora não passa de dados corriqueiros da paisagem local.


Mas é assim mesmo, e não há nenhuma razão para que não seja, nem para ficarmos amargurados com isso. Somos transitórios, olha que beleza: estamos aqui hoje, e amanhã também, mas depois só Deus sabe. O assunto é batido, chavão, banal - o grande sábio transcendental Lulu Santos escreveu um tratado sobre o tema em "Como uma Onda"... Porém, uma coisa me incomoda nesses tempos de personalidades virtuais, celebridades instantâneas e egolatria desenfreada.


A velocidade com que as pessoas são substituídas, a "objetividade" com que se costuma tratar o vai e vem dos rostos, das bocas, dos corpos, dos nomes, me deixa assustado. Não sei se é arcaísmo meu, se é defeito de desenvolvimento emocional, se é sintoma narcisista, mas ainda fico chocado de ver como a superficialidade dos sentimentos marca toda uma geração de hipócritas egoístas, alguns mais, alguns menos sofisticados, mas todos igualmente infantilizados. Não me refiro a quem opta, conscientemente ou não, por não se envolver, não se apaixonar, quem está satisfeito consigo e não gosta de "perder o controle", preferindo encontrar outros caminhos para sua afetividade - amigos, filhos, casos descompromissados. Eu entendo perfeitamente que se possa viver feliz assim. Minha dificuldade é com essa gente à la Caras, que muda de "amor" a cada número da revista. E haja declarações, experiências insequecíveis, tatuagens, demonstrações públicas de enlevo... até a próxima edição.


Ok, nós nos apaixonamos diversas vezes vida afora. É normal, é saudável. Paixões nascem e morrem, cumprem seu ciclo e se vão. Mas na medida em que você percebe a recorrência desse fato - e isso não demora a acontecer para uma pessoa minimamente perceptiva - você começa a entender que o amor é difícil de construir e manter, e passa a ser mais cauteloso, menos dado a arroubos, e, ao mesmo tempo, mais verdadeiro, porque sabe aonde podem levar os enganos, sobretudo os autoimpostos. O cotidiano não é idílio, a convivência não é um passeio de roda gigante, o mundo está sempre pronto para engolir os desavisados. Por isso eu gosto tanto da simpática franqueza da Mulher Fálica, infinitamente superior aos arrulhos lânguidos de qualquer donzela no cio. Tudo é menos complicado dessa forma: as escolhas podem ser feitas com mais clareza, as expectativas ajustadas com mais precisão. Não se trata de racionalizar sentimentos, coisa estúpida, mas de minimizar desgostos e sofrimentos, e permitir que as chances de as surpresas serem boas aumentem.


Mas sobre o que é que eu estava escrevendo mesmo? Era sobre minha indolência, depois foi sobre meu velho, depois virou outra coisa. Ah, não importa... a postagem é besta mesmo, como de resto a maioria das coisas que a gente leva a sério.


Ê, vida à toa.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Minhas raízes alemãs


Decidi aproveitar essa postagem, que restava à toa aqui entre outras que não tive coragem de terminar, para retomar as atividades desse blog preguiçoso e iniciar o ano como quem segue adiante sabendo de onde vem. Agora, nel mezzo del cammin di nostra vita, e sabidamente endurecido o lombo por peia forte, a noção de recomeço, para mim, se mais grave e visceral, é porque justamente sem ilusão - embora jamais sem sonho.

Eu sou de São Luís do Maranhão, nascido e criado num bairro de periferia chamado Alemanha, que, dizem as crônicas, ganhou esse nome por conta dos padres alemães que controlavam a paróquia local de Nossa Senhora da Glória. A rua em que eu passei toda a infância e a maior parte da adolescência foi durante bastante tempo conhecida pelo nome de uma obscura personalidade, um tal Benedito de Alencar Campos, mas, ainda na primeira metade da década de 80, alguma alma imaginativa, por razões também obscuras, decidiu que Minas Gerais era um nome melhor - e ficou sendo. Depois de tombar em uma ladeira íngreme, e não sem antes despir-se devidamente do asfalto, como convém, a rua Minas Gerais mergulha de cabeça no mangue, para, em sua continuação imaginária por sobre a maré e a lama e os caranguejos e as palafitas, terminar no antigo portinho da Carioca, onde hoje fica uma construção branca e cinzenta com eventuais amarelos e jeitão de fábrica, que acontece de ser o Hospital Sarah Kubitschek.

Os tipos e as histórias do bairro Alemanha estão entranhados em mim, no meu imaginário, nos meus sonhos e pesadelos, e perduram nos interstícios do meu eu construído - em trejeitos, chistes, automatismos e idioletos. Percebo isso com frequência, por evocações claras e fugidias que costumam ocorrer no quase nada de tempo entre o pensado, o dito e o feito. Estão aqui: o carroceiro que me me fez descobrir a compaixão, estalando o chicote sem dó num gobilo novinho enquanto gritava "chiba!"; o bêbado que me mostrou, de uma só lapada, o que era auto-ironia, auto-comiseração, e circunspecção - Mariano, de olhar silencioso enquanto, sóbrio, aguentava os moleques que o aporrinhavam quando chafurdava na manguaça e lastimava sua condição pelas ruas, aos berros; a reputada feiticeira, D. Maria Fungá, que instilou em mim o medo e o fascínio pela macumba, pelo oculto, aparecendo na missa de domingo cedo com sua boca de poucos dentes e uma touça de pano na cabeça, depois de ter passado a noite anterior uivando no quintal; o ladrão de galinhas e maconheiro contumaz Batman, sem camisa e de olhos esbugalhados, que aproveitava a fama de mau adquirida depois de um breve período na penitenciária por mixaria para achacar os desavisados, e que me fez aprender a não ter medo sem precisar ter; a mocinha liberal, sempre com um quase nada de roupas, que atendia pelo singelo apelido de Maria Tanajura, professora de uma geração inteira que, graças a ela, pôde aprender o que é o poder de uma imensa e perfeita bunda de mulata. Isso para não falar nos cornos contumazes, nas marocas clássicas, de janela e alpendre, nos viados caricatos, no sempre sorridente filho da dona do puteiro local, com seus 12 graus de miopia e vários parafusos soltos, na velha louca que dava nomes aos pombos e os alimentava todos os dias com os restos de seu almoço, na anãzinha, filha do eterno candidato a vereador, que desafiava qualquer um a sair na porrada. Tudo gente boa e ordeira.

Esse mundo que já não existe, para mim nunca passou. Ele foi e é o contraponto de uma vida interior que se fez não a despeito de tudo isso, mas por causa disso tudo. É claro que eu só posso dizer isso olhando retrospectivamente; no tempo, minha atitude e minha convicção eram de negação quase completa: eu não pertencia àquele lugar, tinha vergonha, era inteligente e sofisticado demais para aceitar aquela vida mesquinha. Mas aquela vida, sem maquiagem, sem diálogos bem pensados, tosca, pobre, era já a vida inteira, comendo o almoço com colher, na cozinha, ao pé do fogão, soltando belos assopros de guaraná Jesus. Foi por causa dessa vida que eu nunca me rendi ao elitismo besta, e foi por causa dela que a consciência do ridículo, do absurdo, do mágico, do grotesco, da gratuidade da existência, penetraram em mim e nunca saíram.

Lá em baixo, o mangue, onde a molecada alugava canoas e descia um braço do rio Bacanga até chegar ao sítio de uma velha para roubar frutas e, eventualmente, escapar de um tiro de sal.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Meu preço

Não resisti, pronto. Isso faz de mim menos louco, por acaso? Mas dessa vez serão gotas, meias drágeas, mais silêncio que esse eu ruidoso.

Surpreendente a intuição, sempre. Deixou-me ver, na imagem espelhada de suas impressões, o que era só calculado por uma razão meio morta: que o silêncio é difícil, muito difícil, e que o seu emergir, persistente e ritmado, é o que gesta, embala e justifica a criação – o tal verbo. E até parece que eu já sabia disso, claro; mas, de repente, um fiozinho de vida fez-me cócegas onde eu não sabia que as tinha, e eu sorri para dentro, calado.

Eu entendi! Acho...

Talvez você não tenha entendido, mas o silêncio tem que ter um preço.


Bearden, He Is Risen,1945, Paine American Modernism Gallery

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Jesus, que diabo é isso?

Tem umas coisas na vida da gente que fazem pensar o que é bom e o que é mau, o que salva e o que mata. Um remédio amargo é bom, mas um delírio, por mais doce que seja, é sempre um delírio. É óbvio, mas o povo continua pensando que berimbau é gaita. Resultado: muita gente mordendo o arame.

Quando Jesus estava terminando de se preparar para sua missão, ele foi passar uma temporada com o diabo, só os dois, no meio do deserto. Pensem nisso: ele foi ter uma conferência privada com o capeta! Que nesse angu tinha caroço, é lógico que tinha; mas, de que tipo? Vou arriscar responder – à la diable, como de costume.

Que o diabo não é tão feio quanto lhe pintam, todo mundo sabe. O que a maioria não sabe é o quanto o diabo é bonito. O grande mentiroso, o grande sedutor, não pode se apresentar por aí com cecê de enxofre, pele de náufrago holandês nas Antilhas e portando um par de cornos retorcidos. Daí ele caprichar no visual, usar um bom perfume, falar macio palavras bonitas e estar sempre pronto a romper em entusiasmo e generosidade. Não à toa a lenda reza que ele é um excelente e vigoroso amante.

Mas o diabo é velho, e por ter arrastado muito a barriga pela terra toda, sabe na pele de coisas que até Deus duvida – porque Ele fez a criação, mas foi o que-diga que saiu para explorar. O diabo tem mapas, e os mapas, como se sabe, não são o território. Minha teoria, então, é que Jesus foi lá não para pegar com ele um mapa qualquer, mas para aprender a arte ancestral da cartografia.

Prestem atenção, que essa é a diferença entre a pílula azul e a pílula vermelha: não adianta ser dono do infinito e da eternidade se você não souber onde as coisas terminam e onde elas começam. Fazer mapas é traçar essas linhas, e traçá-las de modo não arbitrário, ou seja, contra a tentação suprema de quem tem a onipotência.

O que eu estou dizendo, em resumo, é que Jesus foi ao deserto para aprender a se controlar, e só com isso ele pôde sair por aí fazendo ungüento de cuspe para cegueira e outras coisas malucas. E esse negócio, pessoal, é sério, muito sério, por duas coisas, principalmente.

Uma, é que não adianta ficar lidando com os “próprios demônios” – e Jesus, como homem, estava sujeito a eles. Essa é a ralé exibida dos poltergeists da vida, dos desvarios, dos ataques histéricos, e deles não se aprende nada, ou nada que valha muito. Portanto, não adianta “abraçar o seu desejo”, acolher o seu doce demônio, por mais natural e saudável que isso pareça: é preciso ter um cara-a-cara com o coisa ruim em pessoa. E sabe o quê? O diabo, sozinho, não existe, é um nada – pergunte a Riobaldo. O diabo é um vazio, e não um buraco, que buraco são as bordas. Por isso o lugar dele é o deserto.

A outra coisa é que esse encontro quase sempre é mortal. Ninguém que vá à presença do demo pensando que vai ter dois dedinhos de prosa, virar as costas e picar a mula. O diabo quer a nossa alma, que é tão fácil de agarrar que ele pouco se dá ao trabalho de ir apanhar ele mesmo, preferindo mandar seus secretários. Jesus, que era o cara, ficou quarenta dias tentando cortar o assunto, até ser forçado a ser grosseiro, recusar o cafezinho com broa do anfitrião e dizer que tinha outro compromisso.

Já termino, proporcionalmente com duas notícias. A ruim é que não adianta ficar no templo (no consultório, dentro de um livro, no playground do condomínio, em mil comunidades virtuais, onde as coisas são não só confortáveis, mas controláveis) ruminando em si o de si. O diabo não vem até você: é preciso que você vá até ele – invertendo a lógica da supremacia – e se resgate.

A boa é que você não é obrigado a fazer isso.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pequena peça tragicômica em quatro atos e um epílogo para uma noite de insônia

ATO I
Hoje ouvi uma reportagem no rádio sobre a literatura e a filosofia de Camus, cuja obra eu vim a conhecer na adolescência, pasmem, por conta de uma letra de música da banda inglesa The Cure, “Killing an Arab” – só para vocês verem como as coisas tomam forma pela vida afora de um sujeito. O absurdo, a vacuidade, o caráter gratuito de uma existência violenta e sem mira, em que débitos e créditos não se compensam, são, na literatura e no teatro de Albert Camus, as marcas d’água do indivíduo moderno, em seu encadeamento de infortúnios margeados e guiados pela possibilidade de uma alegria que, quando muito, o tangencia, miragem.

O cara que apresentava o programa enfatizava a “modernidade” do existencialismo de Camus no contexto urbano dos nossos dias, e isso e aquilo, dizendo de como o prazer imediatista de um mundo veloz e ambíguo forçava a transformação da fruição em gozo: como um padre apressado que “engolisse a missa” para chegar à eucaristia, o moderno “passa por cima” da fruição, parte aborrecida, para engolir apressadamente seu gozo.

Desce o pano.

ATO II

Há coisa de poucas semanas, numa festa na casa de amigos, eu encarnei o violeiro menestrel e cantei como o Assum preto, olhos vazados pelo aguilhão do abandono. Deve ter sido um espetáculo, lembro-me pouco: exclamações, tapas nas costas, ofertas de bebida e cigarro dados na boca, um chacoalhão de abraço aqui e ali, e pedidos, muitos, que é coisa angustiante para um diletante. O dono da casa anunciava que aquela fora a melhor festa de todas que ele já dera. E, entre os circunstantes, uma morena bonita, mulher feita, baixinha, com um sorriso lindo e pele sedosa, metida num vestidinho esvoaçante que deixava à mostra uma silhueta voluptuosa, a qual as pernas torneadas e fortes confirmavam. Dizia: “Gente, eu estou bêbada!” E ria, e perguntava se eu não sabia tocar essa ou aquela, que eu, prestimoso, inventava saber ali na hora.

Mas a desgraça do Assum é o deleite do público, e eu, do lado de cá da minha cegueira, deixei passar batida qualquer suposição transversal. Para ser franco, eu nem sequer atentei para o fato de ter sido informado, em rodapé, que a moça bonita era, na verdade, uma mulher poderosíssima, de mando e dinheiro. Então tá... Caramba, não parece mesmo. E quem liga?

Desce o pano.

ATO III

EU ligo, claro! Mas não pelo fenômeno externo, quer dizer, não pelo status e seu aparato, que eu estou pouco me lixando. O que me bateu mesmo foi o fato de estar diante de uma legítima, de uma autêntica, de um exemplar de catálogo da mulher fálica. Inteligentíssima, articuladíssima, muitíssimo culta e educada, a mulher fálica em questão não precisa mandar recado, não depende de ninguém e está a anos-luz de qualquer necessidade de autoafirmação. Isso sem ser Tomboy (adorei, como tradução, a expressão “tombahomem”, apresentada por ela depois), que, pelo que entendi, ela nunca foi. Aliás, talvez mesmo por dominar em um ambiente de prevalência masculina, ela se mostra muito cuidadosa com os detalhes de sua feminilidade: cabelos, unhas, roupas, maquiagem, jóias, modos – tudo que poderia induzir qualquer potencial adquirente a acreditar que se trata de uma “petit femme”, uma donzela prestes a entrar em apuros.

Poucas conversas adiante, todas em circunstâncias sociais de polido contato amistoso, resolvi que era hora de convidá-la para um chá, ou suco, ou vinho, enfim, você entendeu. E acabamos tomando mesmo umas cervejas...

Desce o pano.

ATO IV

A ousadia me rendeu, entre outros dividendos, um dos melhores e mais esclarecedores papos que eu já tive com uma mulher sobre a Mulher (e falo “um dos” apenas por dúvida metódica). Não só porque foi divertidíssimo, mas porque sintetizou os resultados de experiências de vida – não só nossas – que, emparelhadas, dão uma boa dimensão da tragicomédia demencial em que nos vemos enredados. E como falei em “síntese”, é assim que eu vou apresentar o conteúdo residual da conversa, que durou umas quatro horas e meia. Antes acrescento que a poderosíssima mulher fálica em questão fez psicoterapias diversas ao longo de mais de quinze anos e se move com desenvoltura também no plano conceitual da psique.

Vamos lá.

1. Se há poucos homens interessantes e disponíveis no mercado, o número deles capaz de “chegar” na mulher fálica é mínimo. Por causa disso, ou a mulher fálica se contenta com paliativos (praticamente impossível), ou ela se aplica em investigar os que se propõem à tarefa (impossível na prática, e adiante ficará claro porque) de decifrá-la.

2. Os problemas de comunicação próprios dos jogos verbais entre macho e fêmea se tornam particularmente agudos na relação entre a mulher fálica e seus pretendentes/atuantes: as pistas que elas deixam para que os machos completem as falas delas têm um mecanismo interno de sabotagem, consistente num desejo velado de que eles não acertem, em muitos ou na maioria dos casos. É uma forma de dizer “você é bom, mas não é tão bom assim...”

3. A mulher fálica é essencialmente histérica e custa muito a admitir, não a nomenclatura, mas o significado e, principalmente, as conseqüências desse fato. Dizer que há um prazer escondido em diminuir o homem (para ver crescer o próprio falo) quase que só arranha o problema: fica subjacente a dificuldade, insuperável para a fálica, de se definir como mulher pela ausência do falo (“a minha situação é muito complicada” foi a frase que, repetindo-se ao longo da noite na boca da minha poderosa fálica, resumiu para mim o ponto).

4. Essa conclusão aqui é minha, não chegou a ser plenamente elaborada no transcurso do diálogo, mas tem fundamento em afirmações comuns: a fálica, sobretudo quando seu “pau” é pequeno, tende a manifestar sua “situação complicada” pelo protesto. “Ela protesta, em nome da Mulher, contra a divisão subjetiva que lhe impõe a impotência do saber para nomear o feminino como tal,” diz-nos S. André (não, não é ao santo que me refiro).

5. O poço do desejo é sem fundo, em homens e em mulheres, de modo que a insatisfação é generalizada. Mas as mulheres – e as fálicas levam isso ao paroxismo – não aceitam mais, não aceitam menos: um grau de virilidade acima, o homem a esmaga, e não serve; um grau de virilidade abaixo, o homem é um banana, e não serve (ou, para algumas, as "fálicas menores", vira item de conveniência, referencial de seu falo subdesenvolvido e incompleto). “Maybe I’m just like my mother/She’s never satisfied” é um verso que só fica perfeito na boca de uma menina.

6. A fálica, mesmo quando entronizada num mando concreto, mesmo tendo “palavra de rainha”, não deixa de viver a sua “situação muito complicada” como uma dor constitutiva. Ela pode se divertir muito, ter muita afluência, rodar o mundo inteiro de primeira classe, ter quantos homens quiser, mas... Para ninguém pode ser mais verdadeira, adequada e dolorida a expressão “sou onde não estou, estou onde não sou”, do que para a mulher fálica.

7. Mulheres são MUITO complicadas, incomparavelmente mais que qualquer homem, e não podem ser desatadas, apenas “cortadas”, como o nó górdio. As fálicas, porém, têm muitas dificuldades em deixar descer sobre si a espada, com medo de perder o fio da sua, ou de se perderem por completo.

Desce o pano e apagam-se as luzes, graças a Deus!

EPÍLOGO

É claro que não há aqui conclusão nenhuma que não seja só um corte ou um recorte. Eu, para dizer bem a verdade, fui forçado a enveredar por esses questionamentos por uma situação pessoal, mas teria dado um braço ou uma perna (o falo não!) para não precisar chegar até aqui. E digo isso porque sempre acreditei que o amor e o perdão precisam escorar as bordas do buraco que é o desejo, especialmente quando se põem juntos dois buracos – ou três, visto que o da mulher é duplo: é ele e o que ele esconde. A vida precisa ser leve, a gente precisa se desligar dessas coisas e aprender a se deixar levar pela intuição, pelo mágico, pelo afeto, mas sem descuidar de que há um aspecto literal do mundo, pelo que ele é o que diz ser, ou seja, um valor nominal. E essa é uma responsabilidade da mulher, inclusive da mulher que habita o homem: é ela que precisa aprender a se expressar, a fazer falar a mudez do fundo da boca de Irma, para usar aqui uma metáfora do famoso sonho de Freud sobre o sentido da feminilidade. O amor depende disso, e isso depende do amor: é um círculo que deve se formar, se desfazer e se recompor sempre, porque o amor é dinâmico, vivo, vida.

O homem sensível e a mulher fálica, no fim das narrativas, no fim da noite, concordaram que só o amor e o perdão são capazes de romper o circuito de sofrimento que os enlaça, e que amor e perdão se tornam cada vez mais difíceis ao longo do tempo, quando nos entrincheiramos em nossas posições, quando nos tornamos, a despeito de nossas boas intenções, endurecidos por uma vida essencialmente solitária, dormindo atravessados numa cama de casal com 50 travesseiros e um comprimido de bromazepam. Sem amor e sem perdão, “o absurdo, a vacuidade, o caráter gratuito de uma existência violenta e sem mira” entram pela nossa janela e, se não virarem a casa do avesso, sentam-se na sala para assistir TV, ou num quartinho qualquer, nos fundos, para jogar baralho. E não nos deixam fruir, só gozar – quando deixam.