ATO I
Hoje ouvi uma reportagem no rádio sobre a literatura e a filosofia de Camus, cuja obra eu vim a conhecer na adolescência, pasmem, por conta de uma letra de música da banda inglesa The Cure, “Killing an Arab” – só para vocês verem como as coisas tomam forma pela vida afora de um sujeito. O absurdo, a vacuidade, o caráter gratuito de uma existência violenta e sem mira, em que débitos e créditos não se compensam, são, na literatura e no teatro de Albert Camus, as marcas d’água do indivíduo moderno, em seu encadeamento de infortúnios margeados e guiados pela possibilidade de uma alegria que, quando muito, o tangencia, miragem.
O cara que apresentava o programa enfatizava a “modernidade” do existencialismo de Camus no contexto urbano dos nossos dias, e isso e aquilo, dizendo de como o prazer imediatista de um mundo veloz e ambíguo forçava a transformação da fruição em gozo: como um padre apressado que “engolisse a missa” para chegar à eucaristia, o moderno “passa por cima” da fruição, parte aborrecida, para engolir apressadamente seu gozo.
Desce o pano.
ATO II
Há coisa de poucas semanas, numa festa na casa de amigos, eu encarnei o violeiro menestrel e cantei como o Assum preto, olhos vazados pelo aguilhão do abandono. Deve ter sido um espetáculo, lembro-me pouco: exclamações, tapas nas costas, ofertas de bebida e cigarro dados na boca, um chacoalhão de abraço aqui e ali, e pedidos, muitos, que é coisa angustiante para um diletante. O dono da casa anunciava que aquela fora a melhor festa de todas que ele já dera. E, entre os circunstantes, uma morena bonita, mulher feita, baixinha, com um sorriso lindo e pele sedosa, metida num vestidinho esvoaçante que deixava à mostra uma silhueta voluptuosa, a qual as pernas torneadas e fortes confirmavam. Dizia: “Gente, eu estou bêbada!” E ria, e perguntava se eu não sabia tocar essa ou aquela, que eu, prestimoso, inventava saber ali na hora.
Mas a desgraça do Assum é o deleite do público, e eu, do lado de cá da minha cegueira, deixei passar batida qualquer suposição transversal. Para ser franco, eu nem sequer atentei para o fato de ter sido informado, em rodapé, que a moça bonita era, na verdade, uma mulher poderosíssima, de mando e dinheiro. Então tá... Caramba, não parece mesmo. E quem liga?
Desce o pano.
ATO III
EU ligo, claro! Mas não pelo fenômeno externo, quer dizer, não pelo status e seu aparato, que eu estou pouco me lixando. O que me bateu mesmo foi o fato de estar diante de uma legítima, de uma autêntica, de um exemplar de catálogo da mulher fálica. Inteligentíssima, articuladíssima, muitíssimo culta e educada, a mulher fálica em questão não precisa mandar recado, não depende de ninguém e está a anos-luz de qualquer necessidade de autoafirmação. Isso sem ser Tomboy (adorei, como tradução, a expressão “tombahomem”, apresentada por ela depois), que, pelo que entendi, ela nunca foi. Aliás, talvez mesmo por dominar em um ambiente de prevalência masculina, ela se mostra muito cuidadosa com os detalhes de sua feminilidade: cabelos, unhas, roupas, maquiagem, jóias, modos – tudo que poderia induzir qualquer potencial adquirente a acreditar que se trata de uma “petit femme”, uma donzela prestes a entrar em apuros.
Poucas conversas adiante, todas em circunstâncias sociais de polido contato amistoso, resolvi que era hora de convidá-la para um chá, ou suco, ou vinho, enfim, você entendeu. E acabamos tomando mesmo umas cervejas...
Desce o pano.
ATO IV
A ousadia me rendeu, entre outros dividendos, um dos melhores e mais esclarecedores papos que eu já tive com uma mulher sobre a Mulher (e falo “um dos” apenas por dúvida metódica). Não só porque foi divertidíssimo, mas porque sintetizou os resultados de experiências de vida – não só nossas – que, emparelhadas, dão uma boa dimensão da tragicomédia demencial em que nos vemos enredados. E como falei em “síntese”, é assim que eu vou apresentar o conteúdo residual da conversa, que durou umas quatro horas e meia. Antes acrescento que a poderosíssima mulher fálica em questão fez psicoterapias diversas ao longo de mais de quinze anos e se move com desenvoltura também no plano conceitual da psique.
Vamos lá.
1. Se há poucos homens interessantes e disponíveis no mercado, o número deles capaz de “chegar” na mulher fálica é mínimo. Por causa disso, ou a mulher fálica se contenta com paliativos (praticamente impossível), ou ela se aplica em investigar os que se propõem à tarefa (impossível na prática, e adiante ficará claro porque) de decifrá-la.
2. Os problemas de comunicação próprios dos jogos verbais entre macho e fêmea se tornam particularmente agudos na relação entre a mulher fálica e seus pretendentes/atuantes: as pistas que elas deixam para que os machos completem as falas delas têm um mecanismo interno de sabotagem, consistente num desejo velado de que eles não acertem, em muitos ou na maioria dos casos. É uma forma de dizer “você é bom, mas não é tão bom assim...”
3. A mulher fálica é essencialmente histérica e custa muito a admitir, não a nomenclatura, mas o significado e, principalmente, as conseqüências desse fato. Dizer que há um prazer escondido em diminuir o homem (para ver crescer o próprio falo) quase que só arranha o problema: fica subjacente a dificuldade, insuperável para a fálica, de se definir como mulher pela ausência do falo (“a minha situação é muito complicada” foi a frase que, repetindo-se ao longo da noite na boca da minha poderosa fálica, resumiu para mim o ponto).
4. Essa conclusão aqui é minha, não chegou a ser plenamente elaborada no transcurso do diálogo, mas tem fundamento em afirmações comuns: a fálica, sobretudo quando seu “pau” é pequeno, tende a manifestar sua “situação complicada” pelo protesto. “Ela protesta, em nome da Mulher, contra a divisão subjetiva que lhe impõe a impotência do saber para nomear o feminino como tal,” diz-nos S. André (não, não é ao santo que me refiro).
5. O poço do desejo é sem fundo, em homens e em mulheres, de modo que a insatisfação é generalizada. Mas as mulheres – e as fálicas levam isso ao paroxismo – não aceitam mais, não aceitam menos: um grau de virilidade acima, o homem a esmaga, e não serve; um grau de virilidade abaixo, o homem é um banana, e não serve (ou, para algumas, as "fálicas menores", vira item de conveniência, referencial de seu falo subdesenvolvido e incompleto). “Maybe I’m just like my mother/She’s never satisfied” é um verso que só fica perfeito na boca de uma menina.
6. A fálica, mesmo quando entronizada num mando concreto, mesmo tendo “palavra de rainha”, não deixa de viver a sua “situação muito complicada” como uma dor constitutiva. Ela pode se divertir muito, ter muita afluência, rodar o mundo inteiro de primeira classe, ter quantos homens quiser, mas... Para ninguém pode ser mais verdadeira, adequada e dolorida a expressão “sou onde não estou, estou onde não sou”, do que para a mulher fálica.
7. Mulheres são MUITO complicadas, incomparavelmente mais que qualquer homem, e não podem ser desatadas, apenas “cortadas”, como o nó górdio. As fálicas, porém, têm muitas dificuldades em deixar descer sobre si a espada, com medo de perder o fio da sua, ou de se perderem por completo.
Desce o pano e apagam-se as luzes, graças a Deus!
EPÍLOGO
É claro que não há aqui conclusão nenhuma que não seja só um corte ou um recorte. Eu, para dizer bem a verdade, fui forçado a enveredar por esses questionamentos por uma situação pessoal, mas teria dado um braço ou uma perna (o falo não!) para não precisar chegar até aqui. E digo isso porque sempre acreditei que o amor e o perdão precisam escorar as bordas do buraco que é o desejo, especialmente quando se põem juntos dois buracos – ou três, visto que o da mulher é duplo: é ele e o que ele esconde. A vida precisa ser leve, a gente precisa se desligar dessas coisas e aprender a se deixar levar pela intuição, pelo mágico, pelo afeto, mas sem descuidar de que há um aspecto literal do mundo, pelo que ele é o que diz ser, ou seja, um valor nominal. E essa é uma responsabilidade da mulher, inclusive da mulher que habita o homem: é ela que precisa aprender a se expressar, a fazer falar a mudez do fundo da boca de Irma, para usar aqui uma metáfora do famoso sonho de Freud sobre o sentido da feminilidade. O amor depende disso, e isso depende do amor: é um círculo que deve se formar, se desfazer e se recompor sempre, porque o amor é dinâmico, vivo, vida.
O homem sensível e a mulher fálica, no fim das narrativas, no fim da noite, concordaram que só o amor e o perdão são capazes de romper o circuito de sofrimento que os enlaça, e que amor e perdão se tornam cada vez mais difíceis ao longo do tempo, quando nos entrincheiramos em nossas posições, quando nos tornamos, a despeito de nossas boas intenções, endurecidos por uma vida essencialmente solitária, dormindo atravessados numa cama de casal com 50 travesseiros e um comprimido de bromazepam. Sem amor e sem perdão, “o absurdo, a vacuidade, o caráter gratuito de uma existência violenta e sem mira” entram pela nossa janela e, se não virarem a casa do avesso, sentam-se na sala para assistir TV, ou num quartinho qualquer, nos fundos, para jogar baralho. E não nos deixam fruir, só gozar – quando deixam.